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Espiritualidade
25/01/2012 21:37:46 - Atualizado em 25/01/2012 21:40:43
Consagrando os primeiros frutos!

Quem trabalha no campo sabe o que significa a suave chuva que cai na época do plantio e que fecunda a semente. Sabe como é bom ver a plantinha rasgando a camada de terra que a envolve e mostrando sua frágil e verde constituição naquele momento. Sabe como é bom ver os dias passarem e ela cada vez mais forte e promissora.

E de repente surgem as flores, prometendo uma colheita abundante. Depois, com muito trabalho, paciência e oração – para que não falte a chuva benfazeja – sente o coração palpitar com os frutos se formando e amadurecendo. Então, chega a hora da colheita e de dizer: - Graças a Deus!

Para os judeus, esse processo não se constituía tão somente na alegria que todo camponês tem quando consegue uma boa safra; era, sobretudo, um momento de louvor, de consagrar ao Senhor os primeiros frutos, as primícias. Daí o nome de “Festa das Primícias”, que também recebia o nome de “Festa das Colheitas” ou “Festa das Semanas”. Essa Festa iniciava-se cinqüenta dias depois da Páscoa, daí o nome “Pentecostes”, em grego.

 

“No dia das Primícias, quando apresentardes ao Senhor uma oblação de grão novo na vossa Festa das Semanas, tereis uma santa assembléia e a suspensão de todo trabalho servil”. (Nm 28, 26)


Os judeus levavam tão a sério essa prescrição que era até ilegal usufruir da nova produção da roça, antes do cerimonial desta Festa das Colheitas:


“Não comereis nem pão, nem grão torrado, nem espigas frescas
até o dia em que levardes a oferta ao vosso Deus.
Esta é uma lei perpétua para vossos descendentes, em todos os lugares em que habitardes”.

(Lv 23,14)


À luz desta Palavra deveríamos examinar o tempo diário que dedicamos à oração, à obra de Deus e como oferecemos o nosso dízimo.


Ofereço o meu dízimo só depois de ter feito todos os gastos próprios,
com o que sobra?
Qual é meu tempo diário de oração?



A oferta de Caim e Abel


Leia o texto de Gênesis 4, 1-12. Trata-se da história de Caim e Abel. Abel ofereceu primogênitos ao Senhor (v. 4). Eram os primeiros e mais preciosos frutos. É como se você tivesse algumas vacas e o primeiro bezerrinho parido, você desse de presente, ao invés de exibi-lo como um troféu. Ele fez justamente o contrário do personagem de Walt Disney, Tio Patinhas, que guardou a primeira moeda que ganhou, a “moeda nº 1”. Abel ofereceu os primogênitos do rebanho ao Senhor.

Caim ofereceu frutos da terra (v. 3), mas não consta que foram os primeiros. As opiniões são diversas sobre o motivo que levou Deus a rejeitar o sacrifício de Caim. Percebo que não é o fato em si –  de Caim não ter oferecido os primeiros frutos – que importa. No coração de Caim estava a semente da desobediência e do egoísmo. O que aconteceu depois é resultado do que ele já tinha no coração, quando ofereceu seus frutos. Ele ficou irritado e abatido (v. 6). O Senhor, entretanto, tenta reabilitá-lo:
 

“Por que estás irado? E por que está abatido o teu semblante?
Se praticares o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te.
Mas se procederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te; mas, tu deverás dominá-lo” (Gn 4, 6-7)


 O pecado está assim: espreitando-nos, querendo um espaço para entrar. E o fundamento do pecado é o orgulho: “O princípio de todo pecado é o orgulho” (Eclo 10, 15).

Caim achou-se no direito de reservar para si os primeiros frutos, afinal fora ele quem plantara e cultivara o campo. O orgulho é exatamente isso: reivindicar o direito que eu tenho sobre mim mesmo. O Senhor diz a Caim que ele deveria dominá-lo. Também em nosso interior o orgulho está gritando. Enquanto é só isso, ainda não é pecado, é “concupiscência” (uma inclinação natural para o pecado que todo ser humano tem desde Adão – cf. Dicionário da Igreja Católica, 2514s). Quando traduzimos essa inclinação em atos, aí o pecado nos domina.

De fato, Caim deixou-se dominar por ele. Foi até o campo e matou seu irmão (v. 8). Como conseqüência, foi expulso daquela terra (v. 11) e a vida abundante deixou de fluir para ele. Daquele momento em diante, a terra começou a negar-lhe os frutos (v. 12). Quantas bênçãos deixamos de receber porque não oferecemos as primícias de nossa vida ao Senhor! E mais: quando nos deixamos encher de orgulho pelos dons que temos e perdemos a consciência de que, se são dons, foram-nos presenteados.

É preciso quebrar essa “herança caimita”! Não porque Deus é cioso daquilo que nos deu, como foi elucidado acima. É porque Ele conhece nosso coração ferido. Quando retemos o que somos e temos, procuramos nossa própria infelicidade, pois quebramos a lei universal onde tudo está em contínuo fluir, como Deus mesmo é contínuo fluir de amor (daí ser o nosso Deus Uno e Trino: comunhão e não solidão). Os reservatórios de vida abundante só podem ser abertos pela generosidade:
 

“Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa.
Fazei a experiência – diz o Senhor dos exércitos – e vereis se não vos abro os reservatórios do céu e se não derramo a minha bênção sobre vós muito além do necessário.” (Ml 3, 10).


É preciso que eu ofereça aquilo que há de melhor em mim em sacrifício (do latim sacrum facere – fazer sagrado). Quando consagro a Deus o que sou e tenho, de forma concreta, colocando ao seu serviço, imprimo a marca do sagrado no meu cotidiano. A reta compreensão do Dízimo  nasce desta noção. Por isso, o Dízimo mais do que ser pago é oferecido.

Tenho consagrado ao Senhor minhas primícias?
Tenho feito de minha vida um sacrifício agradável a Deus?



O sacrifício oferecido em holocausto

Muitos sacrifícios na ritualística judaica eram oferecidos em holocausto, ou seja, eram consumidos pelo fogo. Leia atentamente Levítico 6, 1-6

Aquilo que você é e tem, aquilo que você vive, deve se fazer holocausto: “O holocausto ficará na lareira do altar toda a noite até pela manhã, e se conservará aí aceso o foto do altar” (v. 2). Como foi dito, Pentecostes era a Festa das Primícias e foi nesse dia que o Espírito Santo veio como “línguas de fogo (At 2, 3). Esse fogo está ordenado a consumir tudo o que a ele é oferecido. Quanto mais você se oferecer em sacrifício vivo ao Senhor (Rm 12, 1), mais esse fogo pentecostal tomará conta de todas as áreas de sua vida.

Certamente, todos nós queremos o fogo do Espírito que aquece o coração, mas este é o mesmo fogo que consome, queima e purifica. Como está determinado na Palavra, este fogo deve se conservar aceso até mesmo durante a noite. Simbolicamente, ao fazermos uma vigília, estamos proclamando que queremos que este fogo permaneça aceso em nós, mesmo nas horas da noite. Um gesto a ser feito, também, é oferecer o período do sono a Deus. Quando se faz isto, você estará permitindo que o fogo do altar do Senhor vá operando em sua vida, também quando seu consciente repousa e o inconsciente prevalece. É momento de cura profunda e reabastecimento espiritual.



O que fazer com as cinzas?

O texto diz também que é preciso que a cinza seja retirada (v. 3). Quando algo é consumido pelo fogo, há esse subproduto do que foi consumido: a cinza. Se ela se acumula por demais, pode sufocar o efeito do fogo. Mesmo quando se está no serviço do Senhor, temos esses resíduos próprios de nossa personalidade, que chamo aqui de “cinzas”. E há muita gente que mais do que fogo está cheia de cinzas e as anda espalhando por todas os lugars. Procure, portanto, cuidar das suas cinzas para que não sufoquem o fogo.

O texto bíblico acrescenta um detalhe: a cinza deve ser levada para um lugar limpo (v. 3). Mesmo aqueles traços difíceis e até adoentadores de nossa personalidade, devem ser tratados com respeito. O que não é bom em nosso interior não é para ser depositado num “lixão”. Fazer isso seria apenas transferir o problema de lugar – haja vista os “lixões” que se multiplicam por aí. Respeite suas próprias cinzas e as cinzas dos outros!

Algumas pessoas podem pensar ainda que para elas não há esperança de se renovarem, pois, quando olham para suas vidas, só vêem cinzas. Mas, como acontece com uma fogueira, assim acontece conosco: se as cinzas são sopradas, ver-se-á que ali por baixo há pelo menos uma incipiente brasa. Sempre há esta pequena brasa de esperança ardendo no coração humano!

Por outro lado, a pessoa, por saber que essa brasa existe, pode se descuidar de limpar as cinzas. Aí vem o alerta que está implícito no texto: não basta haver brasas; é preciso haver fogo ardendo!


Em qual das situações me encontro?
O que está se apagando em mim?
Falta-me esperança?
As cinzas são muitas?
Que cinzas preciso colocar de lado?
Como renovar o fogo do Espírito, ardendo em minha alma?



Espiritualidade - Maio 2008


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