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Espiritualidade
01/02/2012 16:23:24 - Atualizado em 01/02/2012 16:25:45
Entre presenças e ausências

Para muitos, a ausência é simplesmente um estado de não-presença. Certamente, disso não podemos duvidar. Quando sentimos a ausência de alguém, distinguimos que nossa vida não é feita somente de encontros, ela também é marcada por rupturas que, no tempo e no espaço, vão determinando nossos destinos e nossas distâncias. Porém, a ausência não é só isso. Podemos dizer que nela há certo rastro de presença, talvez pelo fato de que todo ser humano sempre deixa um pouco de si por onde passa e em quem passa. Neste sentido, ao que pareça paradoxal, a experiência da ausência também é capaz de fazer com que uma ou mais presenças permaneçam contínuas em nossa vida. 

Tudo está ocupado pela presença de algo ou de alguém. Nós, seres humanos, estamos conectados a esse tudo, pois seguimos o ritmo da criação divina, no qual nos conduz à integração com um conjunto de seres dentro da grande morada universal que nos abriga. Talvez o que mais definiria nossa personalidade seriam as próprias presenças que se manifestam no constituir de nossa existência. Tais presenças se instalam em nós à medida que abrimos as portas da morada de nossa intimidade e estabelecemos relações, deixamos adentrarem no terreno de nossa história para que construam seu espaço e fecundem ali suas raízes.
 
 

A experiência da solidão

No entanto, a vida nos reserva muitas surpresas; ao mesmo tempo em que nos oferece, retira de nós. Se dentro de nós há espaços reservados para encontros e presenças, também há espaços para despedidas e ausências. Assim é a dialética da vida humana: nem sempre estaremos juntos uns dos outros. Frente ao grande número de acontecimentos, resultado de nossas distintas decisões, nos afastamos cada vez mais das pessoas que conosco conviviam. A sensação de perda e de vazio toma conta de nosso coração e, quando a isso reconhecemos, estamos sujeitos a sentir as conseqüências que a vida, com suas estações, nos brindaram. Quem, por exemplo, não sentiu aquela dor no fundo do peito por se sentir privado da presença de uma pessoa que muito influenciou sua vida, como um familiar, um amigo especial ou mesmo um grande amor? E, ainda, quem nunca experimentou viver o pungente silenciar de uma noite de solidão? O vivenciar de uma ausência sugere um movimento, nesse instante o coração dispara, a mente desassossega e os olhos já não tardam em crepuscular o brilho lacrimal do sentir da saudade.
 
Saudade, quem nunca foi visitado por ela? Isso faz parte da experiência de todos. Quando não está presente, normalmente é sinal de insensibilidade. O fato é que, às vezes, não conseguimos lidar com a dor de nossas ausências. E é aí onde pode estar o perigo. Diante delas revelamos nossas mais profundas reações. É de ressaltar que muita gente, ao se deparar com suas ausências, chega a sofrer terrivelmente até o estado de se enfermar, subtraindo sua esperança e se desarmonizando de tudo. Nossa história tem mostrado pessoas que cometeram atos insanos só por não suportarem a perda daqueles a quem mais queriam. Isto, sim, poderia resultar não só em um isolamento, mas também em um definitivo assolamento de pessoas em nossa sociedade.

 

Cicatrizando as feridas

Não obstante, algumas práticas podem nos ajudar a cicatrizar as feridas dessa dor. Em primeiro lugar, o simples exercício da consciência do que está havendo com nossas emoções. Observar atenciosamente os sentimentos fará grande diferença na aprendizagem dos conteúdos do coração. Em segundo lugar, assumindo a realidade do distanciamento, adotando novas e criativas iniciativas para seguir adiante na aventura do caminhar humano. Mesmo que não seja fácil, é preciso enfrentar os limites estabelecidos pelas circunstâncias de nossa história sem os lamentos do que dela possa advir de negativo. Por último, reconhecendo que não podemos nos apegar somente a algumas pessoas. Não seriam belos os nossos horizontes se estes fossem matizados apenas por uma única nuance. O encantamento da vida está precisamente no conjugado colorido que dá sentido e brilho à diversidade relacional da qual tomamos parte com toda a natureza ao nosso redor, em outras palavras, há um mundo de presenças querendo também ser companhia no conviver do nosso mundo. Ademais, é importante declarar que cada pessoa tem um lugar singular em nossa vida e, por isso, ninguém mais poderá ocupar o lugar daqueles que compõem nossa comum atmosfera.
 
A verdade é que somos seres carentes por natureza, pois fomos criados incompletos. Enquanto assim existirmos, nossas crônicas humanas sempre nos recordarão que nunca estaremos completamente satisfeitos. Todas as nossas decisões irão requerer cisões, todos os nossos ganhos admitirão perdas... Viver nos exige confrontar com nossos habituais dilemas. Por isso, não podemos negar a realidade de nossas ausências e fugir de suas implicações. Antes de tudo, devemos cuidar dos espaços a ela reservados em nosso interior e não deixar que o mar do esquecimento, idealizado por uma sociedade que privilegia a descartabilidade da vida, leve de nós as presenças que, de alguma maneira, permanecem vivas para sempre.

 

Entre ausências e memórias

Por outro olhar, a experiência da ausência não seria tão negativa. Não a consideremos somente pelo sentimento de perda ou de vazio. Nem tudo nesta vida é efêmero. Assim, mesmo não estando perto de quem preferimos estar, graças à memória do coração, somos capazes de transcender e desafiar o tempo e o espaço da distância, trazendo a presença destas pessoas para junto de nós. Como seres de memória, aprendemos a estabelecer e a conservar sinais através de imagens, escritos, etc., que evocam presenças em nosso meio. Talvez aí esteja o sábio segredo da vida que nos traz um alento: também podemos encontrar presença na ausência.
 
Assim se passa com a experiência de Deus, que nos ofertou seu Filho para que, definitivamente, nunca nos sintamos sozinhos. Aqui se trata de uma presença sacramental, caracterizada pelos afetos do Espírito Santo. Deus está eternamente vinculado a nós por uma união espiritual, constantemente trabalhando seus dons e carismas em nossa capacidade de acolher e responder ao seu chamado, de tornarmo-nos um com Ele no mesmo Espírito (cf. Ef 2,18). “Deus está mais próximo de nós do que nós mesmos!” assim o declarava Santo Agostinho, um dos grandes padres da Igreja. É importante, ainda, recordar que nossa religião faz memória. Ao entregar sua vida, num banquete eucarístico, disse Jesus: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 19b). Quando, pois, no cotidiano de nossas vidas, procuramos realizar tal gesto prestimoso de Jesus, não fazemos memória de um mero acontecimento do passado. Fazer memória, neste aspecto, é sentir a real presença de Jesus, mesmo que revelado no oculto do mistério inesgotável de Deus, conduzindo-nos à descoberta de seu divino rosto configurado em nossas próprias in-consistências de humanos que somos.
 
Apesar de nossas limitações, somos convidados a participar da mesma aliança fielmente garantida por Jesus aos seus discípulos: “Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. (...) Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 14,16; 15,4). Tal referência nos recorda que fomos chamados para sermos uma humanidade de comunhão, que se ame reciprocamente (cf. 1Jo 4,7-13). Comunhão que não se ajusta à atitude do querer se prender no próximo para si mesmo. Seria incoerência querer possuir as pessoas para sempre ao nosso lado. Cativar não é o mesmo que ser cativo. Evidentemente, o verdadeiro amor é livre e, mesmo que vivamos entre presenças não tangíveis aos nossos olhos, ele nos conduz a permanecermos intimamente unidos no coração. 

 

A distância nem tudo separa

Eis que um antigo adágio aludia que as expressões de nossas despedidas estão sempre de acordo com a profundidade dos nossos primeiros encontros. Curiosamente, muitos poetas de hoje ainda rezam que só sentimos verdadeiramente a ausência de alguém quando o amamos. Assim sendo, se a improbabilidade da vida nos separa, é a certeza do amor que possui a capacidade de prosseguir nos aproximando. Quanto mais intensamente amarmos, maior será nossa responsabilidade de deixar às pessoas o melhor de nós mesmos. Por isso, o convite é para explorarmos mais os nossos espaços interiores, que foram preenchidos por presenças, e procurarmos entender que elas continuam ali, marcadas com um eterno sinal de inesquecíveis momentos. Quando olharmos para trás, sejamos capazes de reconhecer todas as marcas das presenças que nos foram generosamente ofertadas. Permitamos que elas permaneçam no harmônico lar de nossa existência, sentindo-nos mais integrados na comunhão sempiterna de Deus. Talvez assim, as sensações originadas pelo experimentar da ausência se convertam em bússola de esperança para o destino do reencontro daqueles que se amam verdadeiramente, pois acabam compreendendo que a distância nem tudo separa e, por isso, não será ela impedimento para que continuem por toda a vida fazendo parte uns dos outros, ainda que entre presenças e ausências.

 

 

Espiritualidade - Julho de 2009

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