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Espiritualidade
01/02/2012 17:36:37 - Atualizado em 01/02/2012 17:38:09
O conceito de amizade nas espiritualidade cristã
No dia 20 de julho celebramos o “Dia do Amigo”. Pedimos ao Pe. Carrara que nos escrevesse sobre amizade na perspectiva da espiritualidade. Suas amizades têm a marca de Deus? E você é amigo de Jesus e amigo como Jesus o foi?

Amizade que nasce de Deus Uno-Trino

A amizade entre os homens possui um fundamento transcendente. Deus é, em si mesmo, amizade, porque n’Ele há três distintas pessoas que vivem em perfeita comunhão. Desde toda a eternidade, Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Os três subsistem numa eterna relação de amor-amizade.  Segundo Santo Agostinho, em Deus há o Amante, o amado e o amor. Deus-Pai é o amante. Jesus-Filho, o amado. O amor é o Espírito Santo, comunhão de amor entre o Pai e o Filho. Ao se autocomunicar aos homens, Deus o faz trinitariamente.

No AT, Deus inicia sua autocomunicação fazendo uma promessa a Abraão e uma aliança com todo o povo que libertara do Egito através de Moisés. Deus constituiu um povo com o qual estabeleceu verdadeira aliança de amizade, de tal modo que ele se tornou o Deus de Israel. No NT, através da entrega de Jesus, Deus comunicou plenamente o seu mistério. Só através de Jesus sabemos que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

Deus-Pai quer ser amigo dos homens, mas quer que tal amizade se realize no mistério do Filho. Deus se dá a nós através do seu Filho Jesus. O Pai se entrega ao Filho e nos entrega o Filho. O Filho se entrega ao Pai por nós e se entrega a nós. Tal entrega acontece no Espírito Santo, Espírito que nos é entregue pelo Pai e pelo Filho. O Pai e o Filho se entregam a nós no Espírito. O Espírito não é o amigo dos homens, mas a causa imediata da amizade dos homens com Cristo. O Espírito nos faz ser amigos de Jesus. Ele não é, portanto, o amigo, mas a própria amizade.  Estando em comunhão com Cristo por graça do Espírito, somos filhos e amigos do Pai. A categoria amizade explicita o cristianismo, cujo fundamento é o amor-caridade.


Mais do que servos: amigos!
 
Jesus, o Filho no qual o Pai fez amizade com os homens, durante a sua existência histórica, mostrou-se verdadeiramente amigo de todos. Anunciou o Reino do Pai, cujo epicentro se encontra na amizade fraterna. Ele quis que os homens se tornassem amigos de Deus-Pai e amigos uns dos outros. Aproximou-se daqueles que não tinham amigos e viviam à margem da sociedade. A ninguém Jesus exclui do seu círculo de amizade. Ao contrário, prostitutas e cobradores de impostos se tornam seus amigos, seduzidos pela beleza de suas palavras, por sua bondade e misericórdia.

Jesus define sua missão como amizade. “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi do meu Pai” (Jo 15,15). Ele assume a condição humana para se tornar o grande amigo dos homens. Seus discípulos não são servos, mas amigos, o que revela profunda intimidade afetiva. E o amigo Jesus não abandona, permanece sempre fiel aos que lhe são fiéis. “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4).


A vivência do amor: centro da mensagem cristã

Ao compreendermos o cristianismo como amizade, constamos que o cristão, por ser amigo de Jesus, torna-se amigo de todos. O próprio Jesus deixa-lhe esta missão. “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando” (Jo 15,12-14). O mandamento do amor, que é o legado de Jesus aos discípulos no Evangelho de João, não se traduz numa assistência fria e indiferente aos outros. O amor, que caracteriza a vida cristã, vive-se num verdadeiro clima de amizade, o que exige real envolvimento com os dramas e angústias do que estão à nossa volta.

Quando chegamos a ser amigos, nossa atitude reflete o amor-amizade de Deus em nós. Toda verdadeira amizade que há no mundo, mesmo fora dos muros do cristianismo, é vestígio da presença real de Deus-amigo na história. O “vejam como eles se amam” fez muito mais para a difusão do cristianismo do que toda teologia e todos os documentos que foram escritos ao longo dos séculos. O que mais atrai na vida dos santos não são seus feitos grandiosos, mas sua amizade-solidariedade com os outros, mormente com os mais abandonados e desprezados.


Especiais amigos
 
Enquanto cristãos, somos amigos de todos. Mas o que dizer dos amigos mais próximos, daqueles que se tornam nossos amigos de uma maneira especial? Evidentemente, podemos ter amigos íntimos, pessoas com as quais compartilhamos nossos sentimentos e angústias mais profundos. Pessoas a quem revelamos nossos segredos.

Por um lado, somos amigos de todos, por outro, apenas de alguns com quem temos mais afinidades, criadas pelas circunstâncias da vida ou por identificações afetivas. Que dizer dessas amizades? São também uma graça de Deus. O próprio Jesus, que se fez amigos de todos, parece ter sido mais próximo de alguns. João tornou-se conhecido como o discípulo amado. “Jesus ficou perturbado em seu espírito e declarou abertamente: ‘Em verdade, em verdade vos digo, um de vós há de me trair!’ Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saber de quem falava. Um dos discípulos, a quem Jesus amava, estava à mesa reclinado ao peito de Jesus” (Jo 13,21-23).  Este “a quem Jesus amava” designa, talvez, certa proximidade de Jesus com João.

João relata, ainda, a especial amizade que Jesus nutria por Maria, Marta e Lázaro, os irmãos de Betânia. Quando Lázaro veio a falecer, suas irmãs mandaram um recado para Jesus. “Senhor, aquele que amas está enfermo” (Jo 11,3). O evangelista constata: “Jesus amava Marta, Maria, sua irmã, e Lázaro” (Jo 11,5).  Mostra-se, surpreende a emoção que Jesus demonstra ao se encontrar com suas amigas. “Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E sob o impulso de profunda emoção” (Jo 11,33). E mais, antes de ressuscitar Lázaro, afirma João que “Jesus pôs-se a chorar” (Jo 11,34).

O episódio revela que Jesus, amigo verdadeiro de todos, tornou-se amigo de alguns em especial, o que é compreensível, porque o homem-Jesus possuía uma psicologia humana e afetos humanos e era capaz de construir relações profundas. Ele amou a todos, mas de modos diferentes. O mesmo se observa na vida dos santos, amigos de todos, viveram grandes amizades. Francisco de Assis e Clara, Teresa e João da Cruz, Francisco de Sales e Joana de Chantal. 

Em nossa existência cristã, ainda que chamados a cultivar uma amizade com todos, temos amigos especiais. Pessoas mais próximas, que nos acolhem em qualquer situação. Sempre dispostas a nos ouvir em profundidade, sem preconceitos ou julgamentos moralizantes. Suas palavras nos iluminam. Querem sempre o nosso bem. É uma grande graça encontrar pessoas assim. Tais amigos não nos impedem de viver a amizade com todos a qual somos chamados. Ao contrário, porque nos amam, nos fazem capazes de amar ainda mais os outros, até mesmo aqueles que temos dificuldade de amar. Seu amor nos sustenta e encoraja.


Amigos: remédio para a alma

A sabedoria popular cunhou um ditado para expressar esta amizade. “Se conhece o amigo certo nas horas incertas”.  Reza ainda o ditado latino: “Amicus vitae medicamentum est” (O amigo é o remédio da vida). E canta Roberto Carlos: “Não preciso nem dizer, tudo isto que eu lhe digo, mas é muito bom saber, que você é meu amigo”. A sabedoria popular encontra eco na própria Sagrada Escritura, que propõe critérios para o discernimento da verdadeira amizade. Vejamos o Eclesiástico: “Dá-te bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil. Se adquirires um amigo, adquire-o na provação, não confies nele tão depressa, pois há amigo em certas horas que o deixará de ser no dia da aflição” (Eclo 6,6-8).

A aflição emerge como a prova da amizade. O que abandona na dificuldade não é amigo. Já o amigo fiel revela-se um tesouro inestimável, superior ao ouro e à prata. “Um amigo fiel é uma poderosa proteção, quem o achou, descobriu um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé. Um amigo fiel é um remédio de vida e imortalidade, quem teme o Senhor, achará este amigo” (Eclo 6,14-16).

Que o Senhor nos conceda a graça de sermos, antes de tudo, seus amigos e amigos de todos os nossos irmãos, mas também a graça da amizade sincera de alguns poucos. 

Espiritualidade - Julho de 2010

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Este recurso será liberado em breve. Aguardando validação do servidor.

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Pe. Paulo Sérgio
 
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Padre Redentorista. Atualmente reitor da comunidade São José - Belo Horizonte - MG.
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