topo
Crônica
03/02/2012 17:58:09 - Atualizado em 03/02/2012 17:58:09
Uma crônica sobre o permanecer

Ela já havia perdido a conta de quantos anos tinha. Sabia que muitas primaveras haviam passado por ela e que os rígidos invernos haviam deixado suas marcas não só em sua casca, mas até mesmo em seu lenho.

Houve um inverno especial - pensava ela num final de tarde, quando mais uma vez o vento levou centenas de suas folhas embora, espalhando-as por toda a parte - que chegara com seus ventos gélidos, precedidos de muitas tempestades. Naquele ano, ela perdera um de seus galhos mais proeminentes, vítima da queda de uma outra centenária árvore que crescera ali por perto, mas que estava fragilizada com suas raízes expostas pela erosão.

Era a crônica de uma morte anunciada. Ela tentara consolar a velha amiga, levando seu carinho a ela quando o vento tocava-a para o lado da vizinha, fazendo com que seus pequenos e extremos ramos acariciassem as folhas da amiga. Aquele suave roçar das folhas acalentava a ferida árvore que já esperava o desfecho fatal de seu destino.

Dez anos se passaram - em suas centenárias vidas, árvores sabem esperar- até o dia em que o terrível inverno chegou. E a vizinha não resistiu e foi ao chão. A amiga até que tentou evitar a queda total, amparando-a com seu grosso galho, mas foi arrancado com a violência da queda. Doera muito e por muito tempo, mas o tempo também se encarregou de curar aquela ferida e ela se recuperou. O local do galho arrancado já estava cicatrizado e ela ganhou pujança em outros galhos, depois que a seiva se concentrou em outras partes de seu lenho.

A partir daquele inverno, em cada nova estação, a árvore lembrava-se de sua vizinha estendida ao chão que, agora, se tornara abrigo para muitas outras espécies de vida, mesmo estando morta. Ela podia vê-la melhor quando chegava o outono e era despojada de suas folhas. E do alto de sua imensa copa, ela divisava a velha amiga transformando-se ano após ano. Ela sabia que esse seria seu destino mais cedo ou mais tarde, mas nem por isso deixava de encher-se de folhas novas todos os anos, assim como também de florir e dar novas sementes. Algumas dessas sementes, até, brotaram protegidas pelo apodrecido lenho da amiga estirada ao chão.

A arte de permanecer na graça é o ato de manter-se firme a cada estação da vida, amparando do melhor jeito que se puder ao próximo e saber que mesmo quando a morte chegar não será o final. As cicatrizes vêm, mas a graça providencia a cura também. Dói, mas a dor irá passar; é só perseverar.

Twitter Facebook Orkut Messenger
Linked Yahoo Meme Google Buzz Delicious
mySpace Blogger Sonico Digg

Este recurso será liberado em breve. Aguardando validação do servidor.

dados do(a) autor(a)
Padre Sérgio
 
twitter.com/padresergioluiz
facebook.com/falecompadresergio
padresergio.com
Pe. Sérgio é sacerdote Redentorista. Atualmente pároco em Juíz de Fora na Igreja da Glória. Procura guiar o seu ministério levando as pessoas a experimentarem a...
12 últimas atualizações
Contato

Paróquia da Glória
Avenida dos Andradas, 855 - Morro da Glória
CEP: 36036-050 - Juiz de Fora (MG)
Telefone: (032) 3215-1831
Siga-me nas redes sociais

Dados Técnicos

Este web site utiliza as tecnologias como HTM5 e CSS3 e é compatível com os seguintes navegadores:
Sistema web desenvolvido por:
Copyright © 2012 Todos os direitos reservados.